Tuesday, May 31, 2011

Monday, May 30, 2011

Diálogos Eróticos - Livro de Arte

A Cooperativa Árvore vai lançar mais um livro de Arte da sua colecção Os Nossos Amigos, desta feita sob o título Diálogos Eróticos, e convidou-me a participar. O livro será composto por pinturas, desenhos, poemas e prosa de artistas convidados e o meu texto terá as letras que se seguem, pela ordem que passo a enunciar:



QUEM

A luz passava pela frincha do estore como se invadisse sorrateiramente um território que ela própria queria deixar repousar mais um pouco, por respeito, antes de polvilhá-lo de farinha, especiarias e levar ao lume de mais um dia de trabalho.

Ao iniciar o processo de espreguiça, sentiu o peso que lhe comprimia o braço e lhe soprava ao de leve sobre o sovaco. Reprimiu a urgência de esticar todas as articulações do corpo durante um longo bocejo e usou o braço livre para afastar algum do cabelo negro que tinha aninhado contra si.

Observou o perfil de nariz maroto e maçãs sensuais, o pescoço de suavidade equiparável à de um pêssego por descascar, o ombro com sardas que pareciam areia da praia. Piscou os olhos, repetidamente, invectivando a sua miopia. Acordar para uma névoa era, em regra, um alívio que adiava a dura realidade, mas outras implicava não saber quem tinha ao seu lado.

Que horas seriam? O despertador não estava em cima da mesinha de cabeceira, o que sugeria que, ou fora roubado, ou a noite tinha sido mais louca do que a recordava. Inclinou-se para a segunda hipótese, já que sentia debaixo de si o que poderia muito bem ser um sapato de salto alto. E lembrava-se de, a dada altura, ter um par de cuecas de renda com o elástico preso às orelhas. E de cheirar-lhe, de entre todas as coisas, a banana.

Fragmentos da véspera abriam-lhe um sorriso nos lábios e animavam-no abaixo do umbigo. O dia tinha começado mal, mas terminado em cheio. Depois de uma noite de insónia pesada e debilitante, a olhar para o vazio entre as pestanas e o tecto através das pálpebras pesadas e cerradas, um dia que correra inesperadamente bem, com as peças a caírem acidentalmente em todos os sítios certos e a completarem o puzzle, que se revelara uma brilhante imagem de sucesso, em vez da dor de cabeça que antecipara

A miopia esbatia-lhe pormenores indesejados, um truque que o excesso de curvatura das suas córneas aprendera com as lições fotográficas de David Hamilton, ponto de focagem na periferia da retina, clic. Contudo, a proximidade do alvo permitia-lhe contornar os cabelos revoltos e concentrar-se nos lábios que assobiavam sem notas, assimilando suficiente detalhe para ter vontade de arrebatá-los, aquela rugosidade carnosa e rosada a comandar-lhe o pescoço como um flautista indiano à cobra do cesto. Mas um beijo não podia ser roubado assim, tinha de ser conquistado. Independentemente do que pudessem ter feito na noite passada, o que permanecia uma incerteza de que não se declarava culpado, o dia seguinte tinha regras próprias. E autorizações novas.

Um beijo era algo especial, uma mecânica entre duas bocas, desajeitado na primeira aproximação, os narizes que não sabem para que lado virar, as bocas secas, as línguas húmidas, a sofreguidão que tem de ser refreada, a intumescência que é resultado do intenso chuveiro dos terminais nervosos, que confluem todos para o que nela é o ralo e nele é o falo.

A seguir ao beijo, as autorizações passam a ser tácitas, os avanços e recuos controlados pelas reacções provocadas, cada toque um convite ao seguinte, cada peça de roupa que sai um grau centígrado que sobe, até que o estado febril exige atestado médico, o remédio é cama, imediata e prolongada, os estímulos incontroláveis e espasmódicos do desejo não têm cura, nem cura se quer.

Não se recordava de ter jantado, mas da euforia da noite sim, de vozes altas, de música ensurdecedora, de ter dançado sem questionar as mudanças de ritmo, de ter pago bebidas, de as ter bebido, de as ter entornado, de não se ter importado, de estar feliz e saber porquê, de ter porquê.

- Olá.

A suavidade de veludo da voz que o despertou do devaneio aderiu-lhe à pele. Ela espreguiçou-se como um gato e beijou-o na face, detidamente, roçando os lábios na barba por fazer, hirsuta como a de um homem das cavernas. O hálito que lhe invadiu as narinas era invulgarmente agradável, assim como o joelho que sentiu insinuar-se-lhe por entre as coxas.

Sentiu-se corar, por ter estado a observá-la como uma estranha e ela a falar-lhe com tanta familiaridade. Deveria dizer-lhe que a noite passada continuava a ser um conjunto de clarões indistintos, sensações quentes e agradáveis, mas sem nitidez?

- Não sei se ontem cheguei a ouvir o teu nome – ouviu-se dizer.

Ela riu-se e ergueu o tronco, sentando-se-lhe sobre a pélvis. Estava nua e isso foi o suficiente para que a carne dele se manifestasse, e quando lhe passou as unhas pela barriga, encolheu-a, arrepiado.

- Outra vez a mesma fantasia, maridinho? – perguntou-lhe ela.



Friday, May 27, 2011

É por isso que eu digo: lutar por aquilo em que se acredita, mas armado!


ecosfera.publico.pt
José Cláudio já tinha avisado que um dia o iam matar, por atrapalhar os madeireiros que devastam a Amazónia. E terça-feira foi morto a tiro, com a mulher.


obsessão vs preguiça

Hoje, um amigo personal trainer estava a mostrar-me um site de musculação que tem uma secção de frases famosas e uma delas era:

«Obcecado é o que os preguiçosos chamam a uma pessoa determinada».

E é verdade. Faz-me sempre lembrar a Susana, que começou por dizer que o meu corpo a atraía e ao fim de três semanas de namoro queixava-se de que eu dedicava demasiado tempo ao exercício físico...

pão de forma

Quando como pão de forma, começo sempre por um dos cantos.

fantasmas

A polícia cobre os cadáveres com um lençol porque é isso que os fantasmas vestem.

Wednesday, May 25, 2011

procriação

Se o sexo e a procriação não estivessem fisicamente ligados, haveria muito menos gente no mundo.

Saturday, May 21, 2011

noite para o dia

Depois de uma noite de insónia pesada e debilitante, a olhar para o tecto através das pálpebras pesadas e cerradas, sem realmente o ver, ora focando-lhe a rugosidade da tinta ora perdendo-me em ondas desfocadas por trás das agulhas que me perfuravam a vista, um dia que correu espantosamente bem, apenas comparável à irrealidade filmada de um argumento destinado a fazer-me brilhar.

barba ao almoço

Cheguei ao escritório, com barba feita pela última vez na quinta feira anterior.
Comentário alheio: Então, já não se faz a barba?
Resposta: Vou ao barbeiro à hora do almoço.

Barba cinco horas mais comprida mais tarde: Então, não ias ao barbeiro à hora do almoço?
Resposta: O barbeiro tinha ido almoçar.

Thursday, May 19, 2011

lar mutatis

Não há lar como um barco. Tem-se o ambiente reconfortante da decoração pessoal, mas por trás das janelas os cenários não estagnam. 

E soalho flutuante já a maior parte das casas tem.

2 em zero

Porque é que, quando se tenta pegar em dois pacotes de cereais ao mesmo tempo, só com uma mão, terminam os dois no chão?

Monday, May 16, 2011

(in)Justiça Cega - dr Vilória e Strauss-Kahn

Patrão do FMI, Dominique Strauss-Kahn, já disse: quer ser julgado pelos juízes desembargadores Eduarda Maria de Pinto e Lobo e José Manuel da Silva Castela Rio. Se absolveram o psiquiatra que violou uma paciente grávida, o que é uma camareira de um hotel de luxo?




pré-fatiado

Queijo pré-fatiado é um milagre da divisão.

Saturday, May 14, 2011

arcos íris

Então e se S. João Paulo II, ontem, em vez de fazer cair um arco-íris sobre Fátima, tivesse pago a dívida externa Portuguesa? Isso é que teria sido de valor!

Sunday, May 8, 2011

Joly Braga Santos Symphony No 4 Op 16 II. Andante (3/8)



Aos 14, 15 anos, a ler das prateleiras dos meus pais o Levantado do Chão de José Saramago e a saturar as ondas hertzianas com os seus vinis, achei que este segundo movimento da 4ª Sinfonia de Joly Braga Santos era tão adequada que parecia irreal. E de uma riqueza emocional como poucas partituras alguma vez conseguiram.

escrita criativa

A minha mãe perguntou-me porque é que nunca tirei um curso de escrita criativa. Respondi que não gosto de sentir a minha criatividade restringida por terceiros.

Saturday, May 7, 2011

parques temáticos

Não gosto de montanhas russas. Os parques temáticos não têm mais nada? É só montanhas russas e lojas de recordações?

Friday, May 6, 2011

Hearts: A Study in Pink, With A Twist Of Red

Assim como o amor é um bailado, o coração é uma sapatilha de pontas. Para servir convenientemente a sua dona, não pode estar nas condições com que se adquiriu, tem de ser dobrado, amolgado, raspado, riscado. Só então, maleável, estará pronto a fazer o seu trabalho.

Um coração novo, de aspecto brilhante, colorido e fofo, é também inexperiente. Precisa de ser torcido, moldado às necessidades da dona. Para saber se é um bom coração, atire-se ás situações, de cabeça. Arrisque, como um gato atrás de um novelo. Se não lhe parece uma actividade divertida, é porque não é um gato. Mas, numa derradeira tentativa, repita a operação ao ar livre, num dia de temperatura convidativa. Se, ainda assim, se cansar depressa, pense que está apenas a testar a resistência e maleabilidade do seu coração. Convém fazê-lo durante o primeiro mês, para aproveitar a garantia. Lembre-se, há séries com defeito.

Tenha em atenção que, por muito bom que possa ser o seu coração, enquanto ente individual, terá de aprender a ajustá-lo ao daquele que ama. Os corações não têm todos a mesma forma, nem a mesma composição. São como peças de um puzzle maior. Para que possam ficar juntos, é preciso identificar bem os seus lados e cantos, até de olhos fechados. Ocasiões de fraca luminosidade surgirão em que essa capacidade lhe será de extrema importância. Previna-se. Treine os seus sentidos. 

Agora, atenção. O mercado está cheio de corações, quem lhe disse que aquele que escolheu é mesmo para si? Identifique as razões da sua escolha. Curiosidade? Atracção? Estética? Afinidades? Mesmo que esse outro coração esteja sozinho e pareça o tal, pode estar reservado a outrem, ou a ninguém. Tome nota. Saiba interpretar os sinais. Primeiro, os seus. Depois, os do outro.

Os corações depreciam. Pela idade, pela manutenção, pelo uso, podem perder valor. Até aos olhos do coração-par. Exactamente. Já obteve o coração cobiçado, já lhe arrancou afirmações de amor eterno, podem até ter sido concretizadas em carta e guardadas em cofre, assinaturas confirmadas por notário, mas nada disso garante eternidade. O coração é volitivo e está em constante evolução. O que satisfez as suas necessidades uma vez, poderá não as satisfazer para sempre. Ou porque perca convicção, ou porque as necessidades deixem de ser as mesmas. Faça listas. Mantenha-se atenta. Actualizada. Leia. Não viva só de receio, pergunte-se se o coração que escolheu continua, também, satisfatório.

No fundo, divirta-se. Não pense muito no que entretanto aqui se explicou, porque só irá enrugar o seu coração. O que tiver de ser, será. Não há como contrariar o destino. O coração não foi feito para ficar apertado, angustiado, nem com meras possibilidades de uma futura desgraça, nem com a sua consumação. Saia. Cuide do seu coração, conhecendo outros. 

Thursday, May 5, 2011

lobo solitário

Sabes que o lobo, por natureza, não é matreiro - essa é uma característica das raposas, que são mais assustadiças e por isso preferem atacar pelo seguro, através de subterfúgios. O lobo, muito mais corajoso e frontal, é directo na sua abordagem à presa.

Quanto a este lobo específico, como sabes, não é nada do tipo esfomeado, tanto mais que até utiliza a técnica do jejum como forma meditativa, o que o ajuda a garantir objectividade e a só meter o dente no que realmente o atrai.

Não sou, de maneira nenhuma, cruel; o meu egocentrismo, quando estou com alguém, resume-se à confiança com que me movo; e interesseiro nem sequer entendo neste conceito.

Se o que me propões assenta numa base de sedução mútua, por quem sóis, dá um passo em frente.

corazón partío

Todos temos amigos fatalistas, que insistem que um coração partido nunca mais ficará inteiro e que, quem diz que sim, é porque nunca o partiu, porque não amava realmente.

Oh meus amigos, não sejais derrotistas nem armados em mártires. O coração não parte, é como se fosse de borracha. disforma quando esmagado, mas eventualmente volta ao sítio. É dar tempo ao material. 

Quem for muito dado a esta maleita, recauchute.

Sunday, May 1, 2011

A Mão de Deus

Deus e a ausência de filhos nos últimos dois mil e onze anos... será que ele criou uma mão como a da Família Adams, só para se coçar?

ao vivo e com palmas

Um álbum de piano a tocar na minha aparelhagem. Quando a música chega ao fim, ouve-se uma multidão a bater palmas. O meu pai pergunta:

- É ao vivo?

Preservativo - campanha



Campanha não moralista e divertida a favor do preservativo.

Filho(s) de Deus

Só há um Deus e por isso o seu nome não precisa de competir com nenhum outro, é apenas Deus. Não há mais Deuses ou Deusas, porque ele é o único no Céu e em todo o Universo.

Deus teve um filho há dois mil e onze anos. Como não há Deusas, teve de utilizar uma humana como barriga de aluguer. Nasceu um carpinteiro, flagelado e assassinado segundo um ritual pagão, aos 33 anos. Pode argumentar-se que a culpa foi dele, por ser desbocado.

A moral da História, aqui, é uma interrogação: há dois mil e onze anos que Deus não dá uma queca? Será abstinente, ou haverá pelo mundo fora outros descendentes directos da semente divina, que souberam manter a boca calada e usaram os seus poderes, não para o Bem, mas para proveito próprio?

É bem provável.

Como matar o bebé da vizinha

Como matar o bebé da vizinha. Primeira conclusão: desejar muito não chega.

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